sábado, 20 de novembro de 2010

Opinião

Aproveitando o "defeso" desta nossa modalidade, divulgo um texto que me foi enviado pelo Sr. José Maria Carrilho, pessoa sobejamente conhecida no meio como antigo praticante, criador e juiz.
Por achar as suas opiniões pertinentes, transcrevo aqui as mesmas e abro, assim, um espaço de reflexão quanto ao futuro do Santo Huberto em Portugal.


"Hoje, que nem sei que dia é, levantei-me, fiz a minha higiene, tomei o pequeno-almoço, tratei dos meus cães (que demora sempre aí umas 3h) e como é um dia daqueles que acordei sem humor, não me apetece ir treinar, o que é um pecado, lembrei-me de divagar um pouco sobre uma das maiores paixões da minha vida: o Santo Huberto.
Terminou a época de 2010. Muitas coisas se passaram, positivas e negativas.
Falar delas todas, embora tenha vontade, seria bom, mas não tenho formação académica para tal.
De tudo o que se passou e que me apraz aqui falar vou dividir em seis partes para assim me explicar melhor.
1º - Organizações: a nível geral já se vêm coisas muito boas principalmente na logística. Todas as organizações têm a preocupação de receber os concorrentes e todo o staf com a maior dignidade.
Na parte técnica ainda se nota uma deficiência muito grande, por isso deixava aqui um alerta para que as pessoas que não têm experiência técnica se rodeassem sempre de alguém com essa experiência, porque acontecem pormenores que sem intenção podem prejudicar os concorrentes. Principalmente nos sorteios e colocadores da caça, que já falaremos mais adiante.
2º - Concorrentes: não há duvida nenhuma que conseguimos alcançar um nível muito bom em qualidade e quantidade. Mas, muita atenção, essa qualidade a que me refiro não tem muita quantidade, senão vejamos.
Ainda há muito concorrente a investir tudo num cão e esquece-se dele, porque não podemos esquecer que a verdadeira qualidade só se consegue no conjunto e ainda se vê muito concorrente a não ser capaz de resolver, de repente, alguns problemas. Não há duvida que a evolução foi tão grande que hoje já se tem a noção daquilo que se vai fazer em relação ao terreno às condições climatéricas e ainda às espécies que se vai caçar.
Temos ainda outros problemas, que é o nível desportivo. É sabido que todos querem ganhar, de acordo, mas com dignidade e desportivismo porque também sabemos que há quem veja, e queira que os outros vejam só as partes boas e nunca vêm as más. Por isso, para essa qualidade aumentar vamos todos aprender a saber perder porque depois as vitórias sabem melhor, e não esquecer que quem vem atrás, sem pressão, vê muito melhor do que quem leva pressão e nervosismo.
3º - Os juízes: é sabido que muito se tem falado sobre os juízes e quem não ganha nunca fica contente. Também é sabido que os mesmos por serem humanos erram muitas vezes, mas também é sabido que existem alguns concorrentes a toda a hora a querer enganar os juízes.
Meus amigos, todos me conhecem sou como sou, valo o que valo e aquilo que vou dizer é simplesmente a minha ideia, portanto será avalizada como quiserem. Diz-se que temos poucos juízes, o que na minha ideia é falso. Eu penso que a quantidade chega, a qualidade é que é pouca, e é pouca porquê? Simplesmente pela forma como se fizeram juízes da responsabilidade das federações e confederação porque algumas vezes bastou só dizer amanhã tu vais julgar e já temos mais um juiz. Isto não tem nada a ver com a competência das pessoas juízes, mas do esquema que por causa de divergências de (Poder) todos querem ter os seus juízes, como é que uma pessoa pode evoluir se estiver sempre a julgar os mesmos conjuntos e no mesmo terreno? Não meus amigos, assim não vamos a lado nenhum. Vamos juntar todos os juízes, fazermos um curso de reciclagem e pôr tudo a julgar por esse País fora. Assim já todos temos competência e deixamos de ser juízes daqui ou dali, porque quem tem competência para julgar nas Beiras também tem em Trás-os-Montes ou no Algarve; e haver só uma entidade na orgânica dos juízes, sei que isto que aqui ninguém vai ouvir, mas continuar da forma que estamos também não é nada!
4º - Colocadores de perdizes: aqui têm as organizações um dos maiores problemas actual das provas de Santo Huberto. Até aqui, nos últimos anos, não havia grande rigor nas pessoas que vão colocar a caça, mas muita atenção isto não deve continuar, porque já vi muita prova estragada por alguém pôr uma peça mal colocada. Primeiro a pessoa tem de ter a noção do objectivo a atingir, tem que conhecer a força da perdiz que tem na mão e ainda ter o conhecimento do terreno que vai utilizar, enfim deve ser uma pessoa que saiba caçar ás perdizes com cão de parar. Sei quanto é difícil esta exigência, mas se evoluímos em tudo, porque não em colocar as peças?
A experiência dos últimos tempos tem-me ensinado que essa mesma pessoa deve ter um perfil responsável e independente e não deve durante a prova ter contactos a não ser com o juiz. Podia falar nalgumas situações menos claras, mas acho que não vale a pena.
5º - Cães: estes são quase sempre a chave do nosso sucesso, mas nem sempre, quantas vezes eles fazem tudo bem feito e nós estragamos. Não há duvida que temos uma grande qualidade de cães de Santo Huberto no nosso País, pelo menos em qualidades naturais, o que já não se passa em ensino.
Meus Senhores, o que vou dizer pode parecer bizarro para muita gente, mas na minha opinião não o é. A disciplina onde um cão tem que ter mais ensino, excepto o patrom e a parelha, é no Santo Huberto. Seria muito maçador explicar a razão aqui, mas no terreno estou disponível a toda a hora.
Para que serve eu ter um cão que ao chegar ao pé do juiz fica sentado e só sai dali á ordem e depois quando encontra duas perdizes ao mesmo tempo nunca mais ninguém o vê, ou quando dá uma tapa fica parado e quando se manda iniciar a caçar corre que nem doido ao local onde possivelmente a perdiz poisou e custa a vir ao contacto do caçador? E no deslize, quando tem uma emanação pára, depois é o caçador que tem que andar á procura da peça. E no cobro, falando em cobros de terreno limpo quantas vezes o caçador tem que ir dizer ao cão onde está a peça para este evitar só que o dono se baixe para apanhar a mesma? Todos estes aspectos tiram ou dão pontos, são estas situações que fazem ou não as pontuações, e também são estas coisas que muitos concorrentes têm dificuldade em ver mas elas acontecem.
Um verdadeiro cão de Santo Huberto é aquele que se adapta a qualquer terreno e em função do mesmo anda o que for necessário tanto para a esquerda ou direita.
6º - Deixo um apelo à organização dos futuros apuramentos e da final do campeonato, para que façam o sacrifício de organizar os mesmos com um calendário que apareça a tempo de todos os concorrentes terem oportunidade de organizarem as suas vidas e não, como é apanágio, ter que se andar sempre à boa “maneira do Bocage”, esperando a ultima moda.
Também será bom deixar-mos de resolver se a final é só com perdizes ou faisões com uma semana de antecedência dos eventos como já acontece dois anos consecutivos.
Portanto meus amigos, no fim de tudo isto chegou o humor e até já me lembro que dia é, ou seja dia de S-Martinho 11/11/2010
Saudações cinegéticas e bom final de época de caça

José Carrilho"